Quem começa a se apaixonar por
música e enveredar por tocar algum instrumento faz isto guiado pela paixão,
pela beleza dos sons produzidos por um instrumento, ou até mesmo pela imagem passada
por isto.

Bons instrumentistas encantam,
passam admiração. A música é tão incrível que o ato de tocar um instrumento, de
produzir uma boa música é visto por muitos como uma habilidade para poucos, um “dom”.
A natureza tem seus próprios sons, o canto dos pássaros junto com o balançar
das folhas e o barulho da queda das águas formam sons únicos, mas produzir
música não é uma coisa simples.
Quando quis enveredar pela música
e aprender a tocar violão e guitarra fui movida por aquela velha admiração. Achar
o som do violão bonito, sentir o arrepio ao ouvir incríveis solos de guitarra,
e pela própria “imagem cool” da música. Quem começa a escutar rock sabe o quanto a “imagem”
do rock parece ser impressionante, tocar guitarra passa a ser uma coisa que vai
lhe dar um “poder” uma imagem legal, mas isto não só no rock.
O inicio do aprendizado de um
instrumento é árduo, seu cérebro parece não estar coordenando seus membros da
forma correta, e a música que parecia ser tão bela, quando tocada por você numa
tentativa iniciante e limitada se torna um horror. A sensação de incapacidade,
na fase inicial ás vezes se torna quase impossível de não ser sentida. Por essa
fase só passa os que realmente sentiram “o chamado” da música, pois a
dificuldade exige muitas horas do seu
tempo, e essas horas de dedicação só são encaradas sob a visão de futuramente
tocar aquelas melodias tão desejadas.
O desafio do inicio é o que torna
a música ser encarada por muitos como coisa de quem tem “dom”. Com certeza você
já deve ter conhecido alguém que disse que começou a tocar algo mas não foi á
frente, não se deu bem porque “não tinha o dom e deixou pra lá”. Desculpa, pura
desculpa. Acredito que existem sim pessoas que tem mais facilidade, que são
melhores em compor, tem uma sensibilidade maior, assim como há pessoas que cantam
muito bem sem fazer aulas de canto, e outras (como eu) cantam tão mal que
talvez não consiga nem com aulas. Mas tenho a impressão que quando muitas
pessoas vêem músicos virtuosos, daqueles que impressionam mesmo, pensam que um
belo dia eles simplesmente acordaram tendo incorporado um espírito from hell, pegaram
o instrumento e começaram a tocar e
compor inacreditavelmente.
A música é cruel e individualista,
se você quer ser grande precisa dedicar muito da sua vida, alguns meses tendo
se afastado dela, e seu instrumento (ou instrumentos) irá lhe detonar. Pra quem
almeja um bom desempenho, o estudo da música se torna uma obrigação, e toda
obrigação se torna uma tortura quando não direcionada a algo de muita paixão. Aqueles
que falam que tocar um instrumento (violão no caso, por ser mais popular) é
fácil, estão mentindo. Ou mentiram ou só tocam Legião Urbana nos almoços de
Domingo.
A música é uma terapia, pra quem
realmente gosta é um prazer, um alivio, mas nem sempre é assim. A música muitas
vezes para mim se tornou um martírio. “não quero tocar hoje, mas tenho que
tocar todos os dias”, “hoje eu não estou com vontade, mas tenho que treinar meu
ouvido sempre se não minha percepção musical vai pro brejo”. São dilemas que
vários (não direi todos) músicos ou aspirantes a músicos sofrem. Quando isto começa
a acontecer, vai abrindo os olhos se não a música se torna um fardo na sua
vida. Todas essas coisas impulsionadas por aquela técnica que você vem há dias
tentando fazer e não consegue, ou por aquela criança de oito anos que toca muito
melhor do que você.
Em algum lugar vi uma entrevista
de um pianista, ou pode ter sido simplesmente um conto que li por aí, não me
lembro. O pianista fez um concerto e ao final uma senhora foi falar com ele e
falou:
- Caramba, eu teria dado minha
vida pra tocar assim como você.
No que ele respondeu:
- É, você teria dado, eu dei a
minha.
O que vou falar pode ser meio
clichê, mas...
A música exige, mas o prazer de
executar aquela música tão desejada, de ver uma composição ou um arranjo
próprio, esmaga os dias solitários com o instrumento, a falta de paciência com coisas que não conseguiu fazer e ás vezes
o sentimento de fracasso.
Acho que perdi um pouco da grande
visão que tinha nos primeiros dias de aprendiz. Talvez o sonho de tocar como
Jason Becker e de fazer trilhas sonoras de games fantásticas como as de Yuzo
Koshiro pareçam, ao contrário de antes, sonhos daqueles inalcançáveis. Talvez
eu tenha sido um pouco atingida pelo peso da música, mas ela não vai me fazer “pedir
pra sair”.
Fazer música não é para os
fracos. E as cordas da minha guitarra continuarão lutando para não serem
domadas e eu continuarei tentando fazer música mesmo que para isso seja
necessário seguir o lema de uma das músicas dos Titãs:
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